União de Freguesias Trancoso e Souto Maior

População: 3420 Habitantes

Área: 57,98 km²

São Pedro

Património: Igreja Matriz, Igreja da Misericórdia, capelas de S. Bartolomeu e da Senhora da Fresta, capela e cruzeiro do Senhor da Calçada, castelo, cruzeiro do Senhor dos Aflitos, Portas d’El-Rei, Casa do Gato Negro, Poço do Mestre e Fonte de Vide

Outros Locais: Parque municipal de espécies raras

Actividades Económicas: Agricultura, pecuária, transformação de mármores, construção civil e comércio

Orago: São Pedro

Festividades:  Nossa Senhora da Fresta (15 de Agosto), S. Marcos (29 de Maio – feriado municipal), Santa Eufémia (16 de Setembro) e Rebentar do Judas (Domingo de Páscoa)

Feiras: Semanal (sexta-feira), S. Bartolomeu (Agosto) e Santa Luzia (13 de Dezembro)

Colectividades: Grupo Desportivo de Trancoso e Associação Cultural e Recreativa de Trancoso

Nesta freguesia urbana que engloba ainda os lugares de Aldeia de Santo Inácio, Ameal, Avelal, Courelas e S. Martinho, ergue-se o monumental castelo de Trancoso, sentinela vigilante, considerado durante séculos o vértice mais importante do triângulo capital do sistema defensivo da Beira. Preenchendo os dois outros vértices, os castelos de Celorico e da Guarda.
A fortificação resistiu, no essencial, ao rodar dos séculos. A cidadela é defendida por cinco torres, cintadas por muralhas coroadas de merlões. A torre de menagem, junto do flanco sul, apresenta uma configuração invulgar, semelhante a um tronco de pirâmide. Este conjunto é rodeado por uma ampla muralha onde se abriam os diversos acessos à povoação. É na evocação da gloriosa história do castelo de Trancoso, e no halo de tradições, dela poético complemento, que ainda hoje podem e devem ser contempladas essas muralhas e essas torres. Em momentos críticos da vida nacional, o do seu crescimento e o da sua definitiva autonomia, constituíram sólido reduto donde partiram para a defesa da Pátria alguns corações verdadeiramente portugueses.
Esta freguesia de S. Pedro é notável, para além da sua vetusta fortaleza, pelo seu magnífico conjunto urbano, o casco antigo, e uma multiplicidade de sinais do tempo, múltiplos monumentos e uma densidade histórica muito forte, nomeadamente ligada à sua feira, à sua população judaica e cristã-nova e a Gonçalo Annes, o Bandarra.
Estranha história a do “official de Sapateiro varam de justificada vida cheia de moraes virtudes, rezervado lá do céculo dourado para exemplo das idades de ferro, admirável por graça Sabio por natureza”. Em 1758, o vigário Rebelo, pároco de S. Pedro, dedicava os maiores louvores a Gonçalo Annes: “Não digo o Profeta, por que a Sancta Inquisição o julgou já indigno de tanto nome, nem digo o Bandarra porque o reputo merecedor de melhor título; mas pouco importa fique arrastado no curto elogio da minha penna, quem tam remontado voa sobre as azas da fama”. Aqui nascido em 1500, Bandarra, sapateiro e trovador nas horas livres, teve alvará de profeta passado pelos séculos seguintes. Foi incomodado pela Inquisição por ser “amigo das novidades e com elas causar alvoroço em cristãos-novos”. As trovas que compôs e onde, entre outras coisas, profetizava o regresso do Encoberto que haveria de devolver a grandeza a Portugal, apesar de proibidas pela Inquisição, foram muito populares entre largos sectores da população, primeiro entre os cristãos-novos e depois durante a ocupação espanhola (1580-1640). Fernando Pessoa disse um dia: “O futuro de Portugal – que não calculo mas sei – está escrito nas trovas do Bandarra”.
A desgraça de Bandarra foi a divulgação da sua obra, das suas “trovas” messiânicas e proféticas. De espalhar a boa nova da sua fama, se encarregaram os judeus. Inicialmente suspeito de judaísmo, acabou por ser ilibado dessa culpa mas mesmo assim foi levado a auto-de-fé, durante o qual abjurou dos seus “erros” e obrigou-se a nunca mais escrever, ler ou divulgar assuntos referentes à Bíblia. Livrado da “fogueira”, recolhe ao anonimato e desaparece da cena pública até à sua morte, ocorrida no ano de 1545. Pelo menos, é o ano constante do epitáfio da lápide mandada erguer junto à sua sepultura por D. Álvaro de Abranches em 1641. O túmulo de Bandarra, cuja inscrição a Inquisição de Coimbra mandou picar, encontra-se na Igreja de S. Pedro, templo inicialmente românico totalmente remodelado no século XVIII.
As reminiscências da permanência dos judeus por estas paragens são muitas. Chegados na segunda metade do século XIV, formaram uma vasta comunidade que aqui imperou até finais do século XVII. Referências importantes desses tempos são o poço do Mestre e a casa do Gato Negro, curioso solar ostentando na fachada de granito, em figuras relevadas, o leão de Judá, as portas de Jerusalém e a preguiça, flagrantes testemunhos de ter sido a habitação de qualquer fidalgo judeu, a casa do Rabi, ou a sinagoga da colónia judaica.
Memórias mais antigas são trazidas pela Capela de S. Bartolomeu, de forma hexagonal e barroca, edificada em 1778 para invocação da veneranda Igreja de S. Bartolomeu, onde se celebraram as cerimónias matrimoniais de D. Dinis e da Rainha Santa Isabel, um dos factos de maior lustre e justo orgulho de Trancoso. O templo, primitivo, precioso monumento românico, situava-se junto da Igreja de Nossa Senhora da Fresta.
De remotíssima origem e inicialmente da invocação de Santa Maria do Sepulcro, a Capela da Senhora da Fresta terá sido fundada por Cardingo, oficial da corte do rei Égica, em 689. Destruída ou deteriorada pelas inúmeras tomadas de posse entre mouros e cristãos, D. Afonso Henriques encarregou os Templários de a reconstruir, em 1162. Edifício de estrutura românica no século XVIII, a fachada e a torre, barrocas.
Ainda de feição barroca é a fonte da Vide, construída em 1812. Diz-se que quem dela beber três goles ficará sob tal encantamento que terá de vir morar na vila. No mesmo estilo, datada de 1770, a Capela do Senhor da Calçada está envolta pela curiosa lenda que diz crescer a barba ao Cristo pintado na cruz de pedra do altar-mor.

Santa Maria

Património: Igreja Matriz, Palácio Ducal, Convento dos Frades, Fonte Nova, capelas de Santa Eufémia e de Santa Luzia, Portas d’El-Rei, Portas do Prado, sepulturas antropomórficas, quartel-general de Beresford, Cruzeiro do Senhor da Boa Morte e Casa dos Arcos

Outros Locais: Serra do Pisco, Fraga do Ladrão e moinhos na margem do rio Távora

Actividades Económicas: Agricultura, pecuária, construção civil e pequeno comércio

Artesanato: Tecelagem e bordados

Orago: Nossa Senhora. da Fresta

Festividades: Nossa Senhora da Fresta (15 de Agosto) e S. Brás (1º domingo de Fevereiro)

Feiras: Semanal (sexta-feira), S. Bartolomeu (anual em Agosto) e Santa Luzia (13 de Dezembro)

Santa Maria é uma das duas freguesias da cidade. Para além da parte urbana, constituem-na os lugares de Boco, Castaíde, Miguel Choco, Montes, Rio de Moinhos, Sintrão e Venda do Cepo. Esta última povoação foi outrora uma freguesia independente, sendo S. Tiago o seu orago.
No lugar de Venda do Cepo foi descoberto o mais antigo documento arqueológico da freguesia, o qual se revelou de grande interesse para o estudo da arqueologia no concelho. Trata-se de uma anta com apenas um esteio, tendo Maria do Céu Ferreira verificado que “o resto do monumento apresenta-se bastante destruído e responsável por este facto é a sua localização no quintal de uma casa, ora, a ameaça de destruição completa é evidente, além da acumulação de detritos na sua área”.
Em 1995, considerava aquela arqueóloga que “torna-se difícil, devido ao estado de destruição do monumento, caracterizar em pormenor o tipo de anta, os esteios estão já bastante fracturados, apenas o que julgamos ser o esteio da cabeceira continua de pé apesar da grande inclinação que apresenta. Parece-nos que a lage de cobertura da anta foi mexida e reaproveitada como patamar de uma casa”. Testemunho de outra época encontra-se junto ao tribunal. Trata-se de uma necrópole medieval com expressivo número de sepulturas antropomórficas.
Igualmente importante para o conhecimento da antiguidade do povoamento da freguesia é a sua toponímia. Topónimos como Vale da Laja, Chão da Laja, Vale da Estrada e Vale Escuro são deveras significativos. Mais interessante ainda é o topónimo Fraga do Mouro ou Fraga do Ladrão, o que presumivelmente revela um caminho muito antigo nas proximidades. Isso mesmo ficou comprovado depois de o Gabinete de Arqueologia ter procedido a estudo e limpeza do local, designando-o por Via do Sintrão.
Sintrão é o nome de um lugar situado ao nordeste da vila e que parece ter as suas origens numa Suintilani “villa”, derivação de Suintila. Este nome foi o de um rei visigodo, sem que isso dê margem a supor que se trata deste, apesar de ser provável já existir no seu tempo o mui vizinho castelo de Trancoso. Outro lugar da freguesia, este situado ao noroeste, é Castaíde, cujo nome provém do latim castaneli ou castaniti, locativo ou genitivo epexegético de “castanelu” ou “castanitu”. O topónimo Castaíde é da mesma origem de Castainço e Casteição, que existem nesta parte da Beira, apesar de fora dos limites do concelho.
Dentro dos limites da freguesia de Santa Maria, no seu frondoso campo, nasce o Távora, rio que ao longo do seu curso banha muitos sítios paradisíacos, cheios de sossego, que tanto podem seduzir pela cor um aguarelista como fazer arregalar os olhos de um caçador de rolas. Um dos primeiros borbutões de água do rio Távora brota na famosa fonte Nova, erigida em 1589 durante a dominação filipina. É uma curiosa construção de estrutura clássica em forma de templete grego, sustentada por sete colunas dóricas de granito. Apresenta um brasão esculpido na parede, sobre as duas bicas.
À data do arrolamento de 1321, a paróquia de Santa Maria de Guimarães era a mais importante e rica da vila, pois a sua igreja foi taxada em 150 libras para as despesas da projectada guerra contra os mouros, apresentando o valor mais alto de entre as nove igrejas existentes. Santa Maria de Guimarães era já no século XII a designação da igreja e deve ter sido importada da actual cidade de Guimarães talvez ainda antes do século XI. A razão desse nome era a posse da igreja pelo mosteiro vimaranense após o testamento de 960 legado à condessa Mumadona.
A igreja de Santa Maria devia obediência à colegiada de Santa Maria de Oliveira, em Guimarães, apresentando os Condes de Povolide o seu abade. Uma jazida desses condes, destruída recentemente, encontrava-se por detrás do altar do actual templo que em 1784 substituiu a igreja românica de 1171. No seu interior, é de salientar a decoração do tecto artesoado, de Isidoro Faria.
A Capela de Santa Luzia foi também uma das paróquias da vila já constantes do arrolamento de 1321. É um templo de estilo românico de transição, provavelmente do século XIII. Na fachada admira-se um portal de volta plena que pertenceu ao desaparecido Convento de Santa Clara e foi para aqui transferido em 1820. Uma cachorrada disposta ao longo da cornija percorre todo o exterior da cabeceira. O interior é de uma só nave, terminando numa abside triangular.
Convento aqui existente, e do qual hoje resta apenas a igreja, foi o de Santo António de Trancoso, também conhecido pelo Convento dos Frades.

Souto Maior

Património: Igreja Matriz, Capela de S. Lourenço, Solar dos Távoras, Quinta das Boiças, ponte romana, calvário, alminhas e sepulturas

Outros locais: Moinhos de água e miradouro das Laginhas com lagar escavado na rocha

Actividades Económicas: Agricultura e pecuária

Orago: Santa Bárbara

Festividades: Santa Bárbara (4 de Dezembro), Nossa Senhora de Fátima (1.ª quinzena de Agosto) e S. Lourenço (1.ª quinzena de Agosto)

Data do século XIV o mais antigo documento conhecido com referências à povoação de Souto Maior. Dois séculos depois, a freguesia registava, no numeramento de 1527, uma das maiores populações do termo de Trancoso.
Num dos lugares da freguesia, Ribeira do Freixo, anteriormente Vila do Freixo, existiu uma albergaria, mencionada num escambo efectuado em 1393, onde se fala de herdades com castanheiros e devesas em Souto Maior e de várias courelas de vinha com seus quinhões de lagares sobre a “Albergaria do Freixo”, situada na povoação de Vila do Freixo. Porcas é o nome de outro lugar, devendo o seu topónimo à grande quantidade de porco-bravo que aí existia. Em tempos, por não gostarem do nome da sua povoação, os moradores passaram a chamar-lhe “Aldeia de Santo Inácio”.
Em termos arqueológicos é rica esta freguesia, pois em vários locais existem lagaretas, sepulturas em pedra e vestígios de troços de uma via romana.