No alvorecer do dia 6, 7 ou 8 de Maio tomou a parte da vila de Guimarães situada entre as cercas nova e velha. A queda do castelo, porém, havia de demorar. Só se deu num dos primeiros nove dias de Junho.

Estava o rei sobre Guimarães quando soube que um corpo de tropas, sob o comando de João Rodrigues de Castanheda, entrara na Beira, pela fronteira de Almeida, e depredava sem oposição. Os fidalgos portugueses que lá estavam, divididos por fundas dissenções, não se uniam para combater o inimigo. «El-Rey estaua em Guimaraaes, e pesaua-lhe muyto, sabemdo como aquellas gemtes emtrarom e o gram dano que assy faziam; e dezia per vezes fallamdo em esto: Marauilhado soo de Gomçallo Vaasquez e de Martym Vaasquez e daquelles fidalgos da Beira que alla estam, amdarem assy os emmigos perantelles come per sua casa, fazemdo tanto estrago como dizem que fazem, e nom lhe poerem a praça, e leixarem-nos assyroubar e hijr a sseu salvo. Pareçe que se dooem pouco da terra que ham de lograr e com que soportam suas homras e Estados».

Já então João Fernandes Pacheco actuava no sentido de congraçar os desavindos, a fim de se obter a congregação de esforços necessária a uma eficaz oposição ao inimigo. Começara mesmo a actuar logo que ele entrou na Beira. Por sua vez, os homens do Porto mandavam «mujtos djnheiros» a Gonçalo Vasques Coutinho e a Martim Vasques da Cunha. Para quê o dinheiro? (A imaginação é livre). Para mover consciências? Para fazer face a despesas habituais em tais circunstâncias? Tudo junto, talvez. A verdade é que os fidalgos se uniram perante o invasor, enfrentando-o quando ele, após ter andado alguns quinze dias «sem reçeo e de seu vagar» e de ter chegado Viseu, regressava a Castela com « muy gramde roubo a marauilha, dhomeens e molheres e moços e gados e bestas e doutras muytas coussas, de guissa que pasauom de setecentas azemellas as que vinham nesta carriagem» como diz Fernão Lopes.

E venceramSede «certos, diz o mesmo cronista, que de boõa e pouca gente nom foy melhor ferida batalha antre os portugueeses e os castellaãos de quantas ouuerom em toda a guerra que esta».-no, aqui perto, junto da capela de S. Marcos, que já então existia.

Depois, no livro A Batalha de Trancoso (com a data de 1947, mas na realidade aparecido em 1951), praticamente a mesma conclusão aparece, com larga explanação de fundamentos: «a batalha de Trancoso deu-se em 1385, entre 6 de Maio e 8 de Junho; mais restritamente: nos fins de Maio ou princípios de Junho (antes do dia 8); muito provavelmente num dos primeiros oito dias de Junho».

Depois disso dois elementos novos apareceram, a confirmarem, de algum modo, esta conclusão.

Um deles é do Livro das Lembranças, de Santa Cruz de Coimbra, publicado por António Cruz em 1968. Já Lopes Correia, na sua obra Trancoso – Notas para uma monografia, para ele chamou a atenção. Eis o seu teor: «Era de mjl iiij ºs Xxiij annos no mes de Mayo apar de Trancoso Martim Vaaz da Cunha e Gonçalo Vaaz Coutinho e Joham Fernandez Pacheco pellejarom com Joham Roiz de Castanheda e foram vencidos os castellaãos». E Maio, portanto.

O outro elemento é de muito maior valor. Foi revelado por Cármen Batlle no estudo «La fecha de la batalla de Trancoso (29-5-1385), inserto em 1966 no «Anuario de Estudios Medievales», da Universidade de Barcelona.

Como se sabe, Pedro Soares de Toledo, alcaide-mor de Toledo, foi um dos capitães mortos na peleja. Cármen Batle vem dizer-nos que o seu túmulo e uma lápide anexa com inscrição (ambos provenientes de um convento toledano) se encontram no Museu Marés de Barcelona, e que na lápide há os seguintes dizeres: «Aqui yaze Pero Suares alcalde mayor de Toledo que Dios perdone e de Donan Ynes de Ayala e fino em seruicio del rey don Juan en la batalla de Troncoso marts xxuiiii dias del mês de Mayo año de Nuestro Saluador Jesucristo de mil e ccc e lxxx e cinco años».

Nada aparentemente mais preciso: a batalha feriu-se a uma terça-feira, 29 de Maio de 1385.

A notícia, que o Prof. Emílio Sáez, de Barcelona, me anunciou antes de publicada, alegrou-me, até porque, como já disse, confirmava, de alguma forma, as minhas conclusões.

Mas havia de haver uma arrelia. Quando me pus a verificar os dizeres da inscrição, deparei com esta realidade: o dia 29 de Maio caiu a uma segunda-feira, não a uma terça; terça-feira foram 30, e não 29.

A inscrição contém, pois, um lapso, e debalde se procurará saber se o que está errado é o dia da semana ou o dia do mês. É de pensar, contudo, que o combate se feriu em 29 ou 30 de Maio.

Perguntar-me-ão se valeu a pena tanto trabalho, tanta preocupação para achar a data da batalha. Direi que sim. Quando encontrei a data crítica, embora inserida num curto período (fins de Maio, começos de Junho), iluminou-se o meu espírito: pude melhor compreender a batalha, completei o plano de ataque do rei castelhano, inseri a batalha, em suma, naquilo a que já chamei «A campanha de Aljubarrota».

(Texto extraído do livro Acerca da Batalha de Trancoso, de Salvador Dias Arnaut, editado pela Câmara Municipal de Trancoso em 1986.)

Classificação dos Campos de Batalha de Atoleiros e de Trancoso

No seguimento de um diálogo estabelecido com a Fundação Batalha Aljubarrota, o Exército Português entregou em Maio de 2003 ao IPPAR – Instituto Português do Património Arquitectónico, propostas de classificação dos locais onde ocorreram a Batalha de Atoleiros (1384) e a Batalha de Trancoso (1385). Sendo dois eventos da maior importância dentro da Guerra da Independência, e portanto relacionados com a Batalha de Aljubarrota, estes dois locais não tinham ainda qualquer reconhecimento ou protecção administrativa. Estas propostas foram aceites pelo IPPAR e desde logo despachadas para as respectivas direcções Regionais, de modo a se poder dar andamento aos respectivos processos administrativos de classificação. No caso de Trancoso esta proposta de classificação foi especialmente oportuna, pois o local onde se verificou esta Batalha seria dentro de pouco tempo utilizado para construções de variada natureza e para a passagem de uma nova estrada.

Cumpridos todos os trâmites legais, a classificação do Campo de Trancoso foi aprovada pelo Conselho Consultivo do IPPAR, em Julho de 2004, com a categoria de “monumento nacional”, ou seja, a mais alta categoria de classificação para bens imóveis, de acordo com o art. 15º da Lei nº 107/2001, de 8 de Setembro. A modalidade de classificação escolhida para todo este Campo, foi a de zona “non-aedificandi”. Posteriormente, em Outubro de 2004, esta classificação foi homologada por Sua Excelência a Ministra da Cultura, Dra. Maria João Bustorff Silva.

Por estarem relacionados, estes três locais poder-se-ão valorizar entre si. Todos têm enormes potencialidades, infelizmente quase ignoradas até hoje. Referimo-nos a potencialidades não só científicas, mas também pedagógicas e turísticas, não apenas para Portugal mas também para a Europa e para o Mundo. Com efeito, estas três batalhas são consideradas como das mais importantes batalhas medievais ocorridas em toda a Europa, pela sua relevância política, diplomática e militar, constituindo por isso um valoroso contributo para um melhor conhecimento da História da Europa, durante a Idade Média.

Deste modo, se em cada local existir uma descrição e explicação adequada da batalha que aí ocorreu, e se esse local for preservado do ponto de vista paisagístico, o conjunto dos três locais ficará valorizado. Será então possível a criação de uma rede de campos de batalha e portanto um conhecimento integrado e mais completo do que foi a Guerra da Independência. É assim extremamente importante que o Exército Português e o IPPAR tenham coordenado esforços, e acordado em proteger em proteger e valorizar três locais da maior importância histórica e cultural.

Em relação À Batalha de Trancoso, a Fundação e a Câmara Municipal de Trancoso implementaram em conjunto, no decorrer de 2005, um primeiro estudo sobre o terreno onde decorreu esta Batalha. Este estudo inclui a foto-interpretação de todo este terreno, e a prospecção geofísica de algumas das suas áreas. Com base nestes estudos, a Fundação, com o apoio da Câmara Municipal, realizou durante os meses de verão de 2005, trabalhos de arqueologia junto à Capela de São Marcos. Estes trabalhos de arqueologia revestiram-se de um indiscutível sucesso, pois permitiram identificar a localização e o traçado da capela que inicialmente se encontrava nesse local. Essa capela foi mandada incendiar em 1385 por Don Juan de Castela quando este monarca se dirigia para Aljubarrota, por simbolizar a derrota do exército castelhano na Batalha de Trancoso.

Estes trabalhos de arqueologia deverão continuar e, se possível, ser concluídos em 2006, para que, em função dos seus resultados, possa ser concebido e preparado o futuro Centro de interpretação da Batalha de Trancoso. Este Centro deverá ser construído no local onde se verificou a Batalha de Trancoso.

Relativamente ao local onde decorreu a Batalha de Trancoso, o IEP – Instituto de Estradas de Portugal confirmou à Fundação que, em face do pedido conjunto efectuado pela Fundação e pela Câmara Municipal de Trancoso, o traçado inicialmente previsto para a variante IC 26 foi abandonado. Este traçado iria atravessar o que foi o campo da Batalha de Trancoso, o que comprometeria para sempre a sua recuperação histórica e paisagística. Está deste modo em fase de estudo-prévio, pelo IEP, um novo traçado para a estrada de Lamego a Trancoso, que não atravessará a zona classificada associada à Batalha de Trancoso. Este facto representa só por si, um contributo significativo da Fundação Batalha de Aljubarrota para a salvaguarda e recuperação dos lugares históricos associados à Guerra da Independência.

(Texto extraído do relatório 2005 da Fundação Batalha de Aljubarrota)