Em Trancoso nasceu Gonçalo Anes Bandarra. Este homem
simples do povo, sapateiro de profissão, profeta e autor de trovas que eram
vistas e achadas de mão em mão, deu tal brado na sua época que a própria
Inquisição o chamou à barra do seu tribunal, dito santo.
Deu-se o caso ter parado em Trancoso um almocreve, o qual jornadeava por esses
quintos no cumprimento de um frete e tivera como roteiro de passagem a muito
nobre vila de Trancoso. Trazia um par de botas para o conserto e meia dúzia de
grossas bolhas nos pés.
Sabendo da existência de um despachado e competente sapateiro-Remendão, depressa
se colocou à porta da oficina do dito e lhe entregou o serviço. Feito este,
prontificou-se o almocreve a pagar o justo valor pela prestação da obra acabada,
de qualidade e asseada. Porém, Bandarra, em vez de lhe cobrar sequer um vintém,
profetizou nos versos seguintes o saldo da dívida:
Irás e virás,
Na praça me acharás
Meio dentro e meio fora
E então me pagarás.
Foi-se o almocreve satisfeito por ter poupado alguns cobres e a julgar
desaparafusado do juízo aquele trouxa que lhe passara recibo através de um verso
mal alinhado. Sim, não havia mais ninguém no mundo que se deitasse a imaginar o
que aquele sapateiro predizia com a estranha lengalenga. Não era de crer, para
quem tivesse o juízo perfeito, que ele voltasse a Trancoso e, para mais,
encontrasse de novo o sapateiro, na praça, meio dentro e meio fora. Que coisa
mais esquisita!
Por isso mesmo, depois de ter ficado varado de pasmo, nunca mais o arrieiro
tornou a pensar no assunto.
Aconteceu, porém, certa incumbência de ofício fazer com que o almocreve, anos
volvidos, tornasse a passar em Trancoso. Ouviu tocar os sinos a Finados e tratou
de perguntar sobre quem tinha morrido na terra, pois sentia, pelo pesar de quem
via, ser pessoa muito querida no lugar. Logo lhe disseram que se tinha finado o
sapateiro, um tal Bandarra, honrado homem de saber, poeta e profeta.
Um baque no peito trouxe à memória do homem aqueles versos aquando do conserto
das botas. Num rufo correu até à praça. Na porta da igreja - que lhe disseram
ser de São Pedro - encontrava-se o esquife onde estava depositado o corpo inerte
e frio do sapateiro. Metade dentro da igreja e metade fora dela.
O almocreve prostrou-se de joelhos e fez o sinal da cruz. Tinha finalmente
compreendido o vaticínio do Bandarra. Retirou da bolsa o dinheiro necessário e
custeou as despesas com o funeral. Estava quite com o homem que retardara o
pagamento para tão insuspeita ocasião e que tanto predestinara por uma forma tão
curiosa.
DESENHO E TEXTO DE
SANTOS COSTA