Untitled 1
O Tição devia ser um jovem e valente guerreiro, hercúleo, de
ombros largos e peito em arco, daqueles homens talhados em granito que dariam
dois se fossem partidos ao meio. Era ele um dos soldados que defendiam o castelo
de Trancoso quando os mouros lhe puseram cerco. Em dia melancólico, olhando ao
longe o acampamento dos sitiantes e a presença incomodativa dos mouros que
faziam demorado cerco à praça de Trancoso, o guerreiro magicou sobre o meio de
sair montado no cavalo e correr de encontro ao inimigo, em desafio à mourama
excomungada.
Enquanto a maioria dos do castelo permanecia a dormir, numa sinfonia de roncos,
assobios e arfares de duvidosa partitura, João Tição resolveu matar o tédio dos
dias de clausura forçada. Causava-lhe certo engulho ver enferrujar na bainha os
gumes da sua espada.
Saiu do castelo pela calada da noite, apenas pressentido por lobos e aves de
rapina, catrapuz catrapós sobre o cavalo, direitinho ao arraial dos mouros que,
a uma légua do castelo, ferravam o galho em sonhos de princesas com trajos
sumários em harém recheado.
Com uma certa temeridade e outra tanta dose de loucura, conseguiu ludibriar as
sentinelas e, penetrando no acampamento inimigo, apoderou-se da bandeira do
crescente que espanejava sobre uma tenda. Refreando os ímpetos de espezinhar ali
mesmo o guião, montou no cavalo e partiu em desfilada de regresso ao castelo,
levando desfraldada ao vento a sua vitória.
Porém, um mouro excluído da beatitude de sonho embalador, deu conta da marosca e
alertou os dorminhocos, mau grado ter preparado os ouvidos para ouvir
impropérios onde não era mencionado o nome de Alá. Feridos na soberba, os mouros
cavalgaram em perseguição do atrevido. Montados em fogosos e descansados
puro-sangue de raça árabe, depressa diminuíram a distância que os separava do
fugitivo. Este, presumindo as portas a nascente abertas, para aí fez seguir o
cavalo. Contudo, as sentinelas do castelo, vendo aquele vulto com bandeira moura
desfraldada e erguida, não abriram sequer uma nesga da porta.
Logo que ciente da situação, o cavaleiro deu uma palmada na garupa do cavalo e
gritou:
- Salta, cavalo! Morra o homem, fique a fama!
Morreu o homem e ficou a fama. Cercado por uma chusma de aviltados guerreiros de
turbante e cimitarra, não afrouxou o seu denodo: a bandeira foi arremessada pelo
herói para dentro das muralhas. Com grande espalhafato de armas e celeuma de
vozes, os mouros esquartejaram o Tição.
Uma outra versão do sacrifício final do herói, que nem tira nem põe valor ao seu
feito, diz que o cavaleiro cristão, capacitado da inutilidade da resistência
perante a desproporção numérica, conseguira fugir para Vale de Mouro, onde foi
cercado pêlos inimigos, trucidado e queimado em azeite a ferver.
DESENHO E TEXTO DE SANTOS COSTA