Longe, longe, para lá da poeira dos séculos que não nos permite descortinar a História, no emaranhado da lenda que a razão não alcança, vivia em Trancoso uma jovem de nome Iberusa e de apelido Leoa.
À força de bater os cercos do castelo e de muitas outras refregas com grande número de homens armados com alfanges e cimitarras, os mouros possuíam, por essa altura, o castelo e o burgo trancosano. Agradaram-se da terra, dos ares que ali respiravam, mas não do frio que rapavam em invernos de rachar pedras, mas tornava-se-lhes difícil a permanência, uma vez que os cristãos não estavam dispostos a deixar-lhes a carga leve.
O rei D. Afonso Henriques andava muito em cólera por ver terras suas e cristãs profanadas pela mourama de turbante no toutiço e Alá na boca. Aquele valoroso rei tinha jurado a si mesmo que os cristãos de Trancoso tinham absoluta necessidade de paz desde o levantar do quente até ao erguer da mesa da ceia. Assim se chegou cerca do castelo, disposto a malhar forte e feio nos usurpadores.
Os mouros, vendo o arraial, prepararam-se para uma renhida defesa, sem que descurassem o ferrolho das portas e tapassem até os buracos por onde pudesse entrar um rato. Todo o repertório das suas vidas e tradições ficou dentro de portas. Por seu lado, D. Afonso especou e dali não saiu, firme como um roble.
Aconteceu no entretanto que a jovem Iberusa foi presa pelos sarracenos numa sala do castelo que tinha, além da porta, uma pequena fresta por onde entrava um jorro de luz tão liso como a lâmina de uma espada. A bela Iberusa, naquela clausura de semi-obscuridade, passava as horas a bordar.
Numa das vezes que ela assomou à fresta da muralha, viu, com suprema alegria arrebatadora, as hostes de D. Afonso que iam avançando, pouco a pouco, abatendo aqui uma muralha, além picando as traseiras a um naipe de mouros, acolá fazendo e acontecendo como mandam as regras da reconquista.
A jovem chamou os seus quatro carcereiros mouros. Eram quatro mastodontes de olhar obtuso e fero, com corpo a condizer, peito felpudo à mira, com turbante, barretina e cimitarras tão largas como uma pá de forno. Os quatro olharam-na com olhar turvo, capazes de lhe tirarem a vida com menos tempo do que o Diabo precisa para coçar a bunda.
Com delicadeza e um sorriso temporizador, Iberusa inquiriu dos seus carcereiros qual a sorte que lhe reservava o alcaide. Com a alma chorosa, ouviu a brutal sentença que a mandava decapitar ainda nessa manhã. Não havia piedade daquele desalmado.
Como competia em tal transe, a jovem chorou a sua desdita, mas encomendou-se a Nossa Senhora numa fervorosa oração. Depois, fazendo por conquistar a mercê dos quatro figurões, rogou-lhes que lhe fizessem companhia até soar a hora da morte.
- Se ficarem aqui nesta cela, eu aliviarei a solidão e, assim, poderei morrer em paz.
Assentiram os quatro, trocando entre si algumas frases em língua de cão. Ficaram, conforme o prometido, contudo insensíveis à dor da condenada.
Iberusa era toda desembaraçada e bela, capaz de tocar e dançar com a graciosidade da mais inspirada dama da corte. Perante a sua beleza, os quatro guardas andaram em roda dela como zangãos, antegozando a voluptuosidade de um harém recheado de virgens como aquela. Iberusa, sem lhes dar troco, contava-lhes em alta voz coisas maravilhosas, milagres da sua religião, a vida de Cristo. Saltava aos olhos que aquilo começava a interessar os mouros brutalizados, a tal ponto que descuidavam o fecho da porta de carvalho chapeada com ferro. Os quatro haviam sucumbido às narrações da prisioneira.
- Conta-nos mais histórias como essa - pediam, cada vez mais interessados.
- Sentai-vos, pois, ao redor, para que as minhas palavras cheguem até vós sem se perder urna sílaba.
Entretanto, lá fora continuava a batalha, de dia para dia mais fera, cada vez mais favorável às tropas cristãs. D. Afonso Henriques abria ao verde, a montante e a jusante, nas cachimónias dos infiéis. Melhor não faria a Besta do Apocalipse se cada uma das cabeças manobrasse uma espada.
Na húmida sala da fresta, Iberusa continuava a entreter os mouros, de tal modo que a própria refrega estava no remanescente do seu interesse. A determinada altura ouviu-se grande estrondo na porta e pelo compartimento correram alguns soldados cristãos, brandindo as suas espadas. Os mouros recuperaram a razão, mas era tarde. O castelo estava tomado.
D. Afonso Henriques recebeu a jovem Iberusa e, ouvida da boca dela a sua odisseia, acreditou ser milagre ali operado.
- Pedia-vos, boa e leal majestade, que me concedêsseis o primeiro dos favores.
- Como presente da vitória, nada me contentará mais do que satisfazer o vosso pedido. E qual é ele?
- Que poupeis a vida destes quatro guardas mouros e os deixeis à minha guarda.
- Mas isso é uma loucura! Mal eu vire as costas, esses infiéis irão cortar-vos a cabeça!
- Consegui convertê-los à fé de Cristo. Juraram ser-me leais e eu jurei que faria tudo para lhes poupar a vida.
O rei, convencido pela expressão segura de Iberusa, concordou:
- Serão poupados e ficarão contigo. Faz deles o que entenderes, para bem da cristandade.
A bela cristã informou ainda o rei de que prometera à Virgem construir naquele local uma capela se se salvasse das garras dos mouros.
- Pois seja construída essa capela, como quereis!
Iberusa cumpriu a promessa e mandou erigir um templo que se passou a chamar de Nossa Senhora da Fresta. Os mouros, ora convertidos, entregaram-se à vida pacífica de simples trabalhadores rurais. Passaram a ser conhecidos como os mouros convertidos de Trancoso. Rezam as crónicas que foram muito amigos da jovem, cumpridores do seu dever e sobretudo devotos da fé cristã. A ser assim ou não, é-me impossível assegurar, pois não estive lá.
DESENHO E TEXTO DE SANTOS COSTA