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Toda a gente sabia, em Trancoso, que Gonçalo Anes Bandarra, o sapateiro, era pessoa de rasgo e intuição. Dia e noite, à luz do sol ou da candeia, consoante, o Bandarra trabalhava com gana nas encomendas da freguesia e ainda lhe sobrava tempo para vaticinar sobre uma infinidade de coisas, com que tornava apetecível a sua companhia. Cristãos e judeus viam nele um profeta que vertia todo o seu vaticínio em versos de muita sabedoria.

Os amigos, sabendo que ele costumava sentar-se numa pedra, chamada o Banco do Eco, resolveram experimentar a sensibilidade e alguns dotes de adivinho do Bandarra.

- A ideia é colocarmos uma folha de pergaminho por baixo da pedra, de modo a que não seja vista por ele, quando lá se sentar. Posta numa das frinchas inferiores da pedra, não há pessoa alguma capaz de atinar com ela.

- Palpita-me que o nosso bom amigo não vai, desta vez, dar pela coisa - disse um dos mais cépticos.

- Já vai em uma boa mão cheia as vezes que tentámos outras partidas neste género e nunca conseguimos fazer-lhe o ninho atrás da orelha - afirmou outro.

- Da última vez até me fez perder uma aposta, o alma de cântaro!

- Não há dúvida - concordaram todos. - Desta vez vai ser muito mais difícil passar-nos a perna.

Assim foi feito. Numa das juntas do banco, entre uma talisga formada nas pedras do assento e das costas, colocaram um pequeno pedaço de pergaminho, de tal maneira que este não era visível, mesmo com algumas tentativas de busca. Só eles sabiam a sua existência naquela fresta.

Bandarra gostava de passar alguns momentos de ócio naquele banco. À sombra das árvores e a ouvir cantar os pássaros, a fascinação do lugar era propícia às suas visões e à escultura oral dos seus poemas. No dia em que os amigos se queriam tirar de dúvidas, chegou-se o Bandarra para o seu banco sem se mostrar inquieto ou desconfiado. À sua volta os curiosos formavam um semicírculo como habitualmente. Porem, mal o sapateiro profeta colocou um pé na pedra, suspendeu os movimentos e, olhando para cima e para baixo uma meia dúzia de vezes, acabou por inquirir, entre um sorriso matreiro e desdenhoso:

- Que vem a ser isto, meus amigos? Alguma coisa se passa pois a senti mal coloquei o pé neste banco, o qual não acho regulado como é costume estar. Daqui devo concluir antes de tirar outras razões: ou a terra subiu ou o céu baixou.

Os amigos ficaram todos de boca aberta e à espera da reacção do Bandarra. Muito pacatamente, com a ponta dos dedos, o profeta pôs-se a esmiuçar as reentrâncias da pedra e, para pasmo dos brincalhões, retirou de lá a folha de pergaminho.

 

DESENHO E TEXTO DE SANTOS COSTA

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