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São Pedro 

Nesta freguesia urbana que engloba ainda os lugares de Aldeia de Santo Inácio, Ameal, Avelal, Courelas e S. Martinho, ergue-se o monumental castelo de Trancoso, sentinela vigilante, considerado durante séculos o vértice mais importante do triângulo capital do sistema defensivo da Beira. Preenchendo os dois outros vértices, os castelos de Celorico e da Guarda.

A fortificação resistiu, no essencial, ao rodar dos séculos. A cidadela é defendida por cinco torres, cintadas por muralhas coroadas de merlões. A torre de menagem, junto do flanco sul, apresenta uma configuração invulgar, semelhante a um tronco de pirâmide. Este conjunto é rodeado por uma ampla muralha onde se abriam os diversos acessos à povoação. É na evocação da gloriosa história do castelo de Trancoso, e no halo de tradições, dela poético complemento, que ainda hoje podem e devem ser contempladas essas muralhas e essas torres. Em momentos críticos da vida nacional, o do seu crescimento e o da sua definitiva autonomia, constituíram sólido reduto donde partiram para a defesa da Pátria alguns corações verdadeiramente portugueses.

Esta freguesia de S. Pedro é notável, para além da sua vetusta fortaleza, pelo seu magnífico conjunto urbano, o casco antigo, e uma multiplicidade de sinais do tempo, múltiplos monumentos e uma densidade histórica muito forte, nomeadamente ligada à sua feira, à sua população judaica e cristã-nova e a Gonçalo Annes, o Bandarra.

Estranha história a do “official de Sapateiro varam de justificada vida cheia de moraes virtudes, rezervado lá do céculo dourado para exemplo das idades de ferro, admirável por graça Sabio por natureza”. Em 1758, o vigário Rebelo, pároco de S. Pedro, dedicava os maiores louvores a Gonçalo Annes: “Não digo o Profeta, por que a Sancta Inquisição o julgou já indigno de tanto nome, nem digo o Bandarra porque o reputo merecedor de melhor título; mas pouco importa fique arrastado no curto elogio da minha penna, quem tam remontado voa sobre as azas da fama”. Aqui nascido em 1500, Bandarra, sapateiro e trovador nas horas livres, teve alvará de profeta passado pelos séculos seguintes. Foi incomodado pela Inquisição por ser “amigo das novidades e com elas causar alvoroço em cristãos-novos”. As trovas que compôs e onde, entre outras coisas, profetizava o regresso do Encoberto que haveria de devolver a grandeza a Portugal, apesar de proibidas pela Inquisição, foram muito populares entre largos sectores da população, primeiro entre os cristãos-novos e depois durante a ocupação espanhola (1580-1640). Fernando Pessoa disse um dia: “O futuro de Portugal - que não calculo mas sei - está escrito nas trovas do Bandarra”.

A desgraça de Bandarra foi a divulgação da sua obra, das suas “trovas” messiânicas e proféticas. De espalhar a boa nova da sua fama, se encarregaram os judeus. Inicialmente suspeito de judaísmo, acabou por ser ilibado dessa culpa mas mesmo assim foi levado a auto-de-fé, durante o qual abjurou dos seus “erros” e obrigou-se a nunca mais escrever, ler ou divulgar assuntos referentes à Bíblia. Livrado da “fogueira”, recolhe ao anonimato e desaparece da cena pública até à sua morte, ocorrida no ano de 1545. Pelo menos, é o ano constante do epitáfio da lápide mandada erguer junto à sua sepultura por D. Álvaro de Abranches em 1641. O túmulo de Bandarra, cuja inscrição a Inquisição de Coimbra mandou picar, encontra-se na Igreja de S. Pedro, templo inicialmente românico totalmente remodelado no século XVIII.

 

As reminiscências da permanência dos judeus por estas paragens são muitas. Chegados na segunda metade do século XIV, formaram uma vasta comunidade que aqui imperou até finais do século XVII. Referências importantes desses tempos são o poço do Mestre e a casa do Gato Negro, curioso solar ostentando na fachada de granito, em figuras relevadas, o leão de Judá, as portas de Jerusalém e a preguiça, flagrantes testemunhos de ter sido a habitação de qualquer fidalgo judeu, a casa do Rabi, ou a sinagoga da colónia judaica.

Memórias mais antigas são trazidas pela Capela de S. Bartolomeu, de forma hexagonal e barroca, edificada em 1778 para invocação da veneranda Igreja de S. Bartolomeu, onde se celebraram as cerimónias matrimoniais de D. Dinis e da Rainha Santa Isabel, um dos factos de maior lustre e justo orgulho de Trancoso. O templo, primitivo, precioso monumento românico, situava-se junto da Igreja de Nossa Senhora da Fresta.

De remotíssima origem e inicialmente da invocação de Santa Maria do Sepulcro, a Capela da Senhora da Fresta terá sido fundada por Cardingo, oficial da corte do rei Égica, em 689. Destruída ou deteriorada pelas inúmeras tomadas de posse entre mouros e cristãos, D. Afonso Henriques encarregou os Templários de a reconstruir, em 1162. Edifício de estrutura românica no século XVIII, a fachada e a torre, barrocas.

Ainda de feição barroca é a fonte da Vide, construída em 1812. Diz-se que quem dela beber três goles ficará sob tal encantamento que terá de vir morar na vila. No mesmo estilo, datada de 1770, a Capela do Senhor da Calçada está envolta pela curiosa lenda que diz crescer a barba ao Cristo pintado na cruz de pedra do altar-mor.

 

Área: 15,27 km²

População: 1719 habitantes

Anexas: Aldeia de Santo Inácio, Amial, Avelal, Courelas e S. Martinho

Património: Igreja Matriz, Igreja da Misericórdia, capelas de S. Bartolomeu e da Senhora da Fresta, capela e cruzeiro do Senhor da Calçada, castelo, cruzeiro do Senhor dos Aflitos, Portas d’El-Rei, Casa do Gato Negro, Poço do Mestre e Fonte de Vide

Outros Locais: Parque municipal de espécies raras

Actividades Económicas: Agricultura, pecuária, transformação de mármores, construção civil e comércio

Orago: São Pedro

Festividades:  Nossa Senhora da Fresta (15 de Agosto), S. Marcos (29 de Maio - feriado municipal), Santa Eufémia (16 de Setembro) e Rebentar do Judas (Domingo de Páscoa)

Feiras: Semanal (sexta-feira), S. Bartolomeu (anual, 18/24 de Agosto) e Santa Luzia (13 de Dezembro)

Colectividades: Grupo Desportivo de Trancoso e Associação Cultural e Recreativa de Trancoso

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